segunda-feira, 25 de março de 2013

A Batalha pela sua Alma (Parte I)

Há muito tempo as religiões e cultos afrobrasileiros enfrentam um ataque declarado de intolerância religiosa, preconceito e discriminação de toda a sorte, engendrado em sua maioria pelas igrejas evangélicas, principalmente as "neopentecostais”(1) que ganharam popularidade, espaço na mídia (televisiva, de radiodifusão e impressa) e expressão política. A capilaridade com que essas igrejas se expandiram em solo brasileiro, muitas fora dele e os motivos que levaram uma representativa parte da população brasileira a se converterem, têm sido analisados por muitos cientistas sociais e religiosos em seus estudos e teses, agora não mais vistos como um mero fenômeno social religioso, mas sim, como uma incontestável realidade no quadro demográfico de nosso país.

Dados do Censo Demográfico 2010 apontaram que a população evangélica no Brasil passou de 15,4% da população para 22,2% o que representava à época 42,3 milhões de pessoas colocando-a como a segunda religião com o maior número de adeptos no país. Estudos evangélicos acreditam que se essa taxa de crescimento persistir ou aumentar como se espera, em 2022 eles poderão ter em seus quadros 50% da população do país. Para o Brasil que ainda é considerado o maior país do mundo em número de católicos nominais (123 milhões ou 66,4% da população em 2010, mesmo assim quase 10% a menos que o censo de 2000) e com o Espiritismo sendo a terceira potência religiosa com 3,8 milhões de adeptos, esse volume de evangélicos em 2010 e sua curva de crescimento é no mínimo preocupante para não dizer outra coisa. Nesse mesmo censo marcamos presença com 407 mil pessoas e o Candomblé com 167 mil.

Estatísticas a parte, para nós umbandistas, esses números significam apenas uma coisa, a construção de um cenário cada vez mais hostil naquilo que já foi denominado de "conflito religioso", "guerra religiosa" ou "guerra espiritual" por alguns renomados estudiosos. Ari Pedro Oro(2) em 1997 tinha uma pergunta em mente "NEOPENTECOSTAIS E AFRO-BRASILEIROS: QUEM VENCERÁ ESTA GUERRA?”(3). Vale salientar, que essa é uma guerra que nós afro-brasileiros nunca procuramos, ao contrário somos os alvos e vítimas.

Ao generalizarmos essa beligerância para todos os evangélicos o fazemos por um motivo óbvio, as suas crenças e doutrinas religiosas não permitem outro modo de comportamento que não seja a demonização de nossos ritos, liturgias, entidades, orixás etc. Há raras exceções nessa minha avaliação, mas são vozes apagadas diante do clamor da multidão. Muitos evangélicos nos tratam com uma educação dissimulada e um fio de tolerância mínimo, outros se vestem da capa do verniz social e do bom conviver obrigado, a maioria, no entanto, se comporta como massa de manobra do que se prega nas igrejas que frequentam. Não é permitido aos evangélicos o conceito e prática da alteridade(4) e de que nossas religiões, as afro-brasileiras, são um caminho legítimo para o Sagrado, tanto quanto a deles. Sem essa prática de alteridade, para os evangélicos não existe – eles e os outros, mas sim, eles (salvos) e os outros (não salvos), pior ainda, os outros precisam serem salvos por eles.

O Outros para os evangélicos somente serão iguais quando forem convertidos, enquanto isto não acontecer os outros são os opositores que devem ser combatidos, os leigos que devem ser doutrinados, os incautos que devem ser convencidos até serem salvos em nome de Jesus.

Uma vez evangélico a bandeira da Salvação(5) foi cravada definitivamente em sua mente, Jesus torna-se o general da sua vida, a Bíblia uma poderosa arma, o testemunho repetitivo a prova de sua fidelidade, a palavra uma metralhadora giratória (para ataque, pregação, doutrinação dos ainda não salvos e auto-hipnose, ou o convencimento de si mesmo), o dízimo a valorosa contribuição a causa, o voluntariado demonstração de desprendimento da vida profana e, finalmente o batismo nas águas a confirmação do crente para a igreja e o seu ingresso definitivo na família de Deus.

Os passos para uma conversão seriam até simples se o trabalho envolvido para a conquista de um novo prosélito não fosse bastante complexo e com profundas consequências para o destinado a se salvar.

Primeiro Passo: A pessoa deve se reconhecer como um pecador.

Para isso desde o início toda uma culpa é trabalhada, quanto maior for o sentimento de culpa mais profundo e concreto será o alicerce em que se edificarão as condições para a conversão do indivíduo. Esse é um passo que permite um rápido acesso a pessoa já que geralmente todo mundo tem diversos problemas pessoais ou familiares. Ao se maximizar as problemáticas enfrentadas pela pessoa como originadas de um caminhar em pecado, sem Cristo no coração, que a sua única opção é aceitar Jesus como seu Salvador e usando do artifício de uma doutrinação massiva e insistente consegue-se quebrar a resistência de quem se encontra frágil perante a vida e com a mente despreparada para argumentar e aguentar a pressão doutrinadora.

A facilidade como isso acontece é uma realidade, por mais que não desejemos aceitar. Como diz Dick Sutphen em seu livro “A Batalha pela sua Mente” citando o escritor e filósofo norte-americano Eric Hoffer – Eu estou convencido que pelo menos um terço da população é aquilo que Eric Hoffer chama “verdadeiros crentes”. Eles são sociáveis, e são seguidores... São pessoas que se deixam conduzir por outros. Eles procuram por respostas, significado e por iluminação fora de si mesmos. Hoffer, que escreveu O VERDADEIRO CRENTE, um clássico em movimentos de massa, diz: “os verdadeiros crentes não estão decididos a apoiar e afagar o seu ego; têm, isto sim, uma ânsia de se livrarem dele. Eles são seguidores, não em virtude de um desejo de autoaperfeiçoamento, mas porque isto pode satisfazer sua paixão pela autorrenúncia!”. Hoffer também diz que os verdadeiros crentes “são eternamente incompletos e eternamente inseguros”!

Segundo Passo: Arrepender-se e abandonar os pecados.

Aqui começa o processo de dissociação de tudo o que existe na sua vida que represente, ou seja, o motivo da pessoa reincidir no pecado. É nesse passo que a pessoa exclui tudo aquilo que a pregação do pastor e a doutrina professada pela igreja que vai adotar identificam como fator de pecado em sua vida. Deve não só demonstrar profundo, verdadeiro e contido arrependimento, mas provar de forma incontestável o abandono do pecado. Nesse ponto o corporativismo evangélico é muito forte. Uma coisa que a pessoa não pode reclamar em seu processo de conversão é a falta de assistência, apoio, orientação e companhia. Invariavelmente, sempre se tem uma ou mais pessoas próximas acompanhando de muito perto os seus passos, incentivando, levantando a moral e martelando todo tempo a “palavra”, enfim fazendo o que é possível para que não haja queda, retrocesso, desistência ou desvio no caminho de quem vai se salvar.

O problema que acontece nessa fase de expurgação do pecado e de ter que provar que abandonou tudo o que o motiva a pecar na sua vida; é o ostracismo que o indivíduo acaba, ele mesmo, se impondo. Sim, porque não existe um limite, um filtro que clarifique, com total isenção, quais setores e pessoas da sua vida contribui para o pecado. Na dúvida, se afaste de tudo e de todos. Livra-te do mal, doa a quem doer! Se teu olho é motivo de escândalo, bem... Arranca-o fora! E, assim muitos o fazem, sem critério, sem nenhum motivo racional, obnubilado pelo medo de cair novamente e de ter comprometido o seu início de caminhada na nova fé!

Terceiro Passo: Colocar toda sua confiança em Jesus Cristo.

Em outras palavras é aceitar a "Palavra", "Crer que Deus enviou Seu filho unigênito para cumprir a pena que seria sua!" Fazendo isso à pessoa é perdoada de todos os pecados cometidos no passado, não tendo mais nenhuma culpa ou responsabilidade por nenhuma consequência de seus atos pregressos. Para mim, essa é a pedra de toque da conversão, o aparelho “apagador de memórias” do filme Homens de Preto perde é feio. Somente posso entender que o trabalho realizado para maximização da dor da culpa, dos sentimentos contraditórios, das emoções exacerbadas e do cansaço diante das marteladas doutrinárias alcançam uma intensidade tamanha que a mente do indivíduo entra em curto e o instinto de sobrevivência aperta o botão de “reset”, não somente reiniciando o sistema operacional do cérebro, mas formatando o disco rígido da alma. Eis então, que tomando a “pílula vermelha” da nova fé, Neo-convertido transforma o deserto do real da sua vida, que deveria ser enfrentado por si mesmo em Matrix e, em Matrix a realidade virtual da religião que passa adotar, entregando nas mãos de terceiros o controle da sua existência.

Quarto Passo: Receber a Jesus Cristo como seu único Salvador e Senhor da sua vida.

Essa fase da conversão é o ápice da purgação final. Após passar pela tribulação do reconhecimento como pecador e o arrependimento inconteste o agora convertido sofre a catarse final e é banhado pela luz no fim do túnel do extenuante processo de recriação que a conversão produz.

Sim, recriação! O agora crente ou convertido não passou por uma reabilitação, uma reeducação ou uma reforma, mas foi recriado (nova criação) e passa a viver em uma união vital com Cristo! O novo convertido é uma nova criatura!

Agora está tudo explicado e ficam claro as atitudes e comportamento do convertido. Se, após o período de gestação e parto religioso, o fulano pecador de outrora deixou de existir e o "cristano" (união vital de Cristo com o novo sicrano) surgiu, qual fênix das cinzas, significa dizer que ele nasce zerado, uma página em branco, sem mais um passado pecador, já que o passado se foi e eis que tudo é novo!

"Bebê espiritual" assim é considerado o novo convertido e como tal deve ser cuidado, alimentado e zelado pela família que agora é a sua, a família de Deus. Assim, todos da igreja devem colaborar como verdadeiros "anjos da guarda", dispostos a tomar a defesa nas diversas batalhas que o novo convertido vai enfrentar nessa guerra para a consolidação da sua conversão.

Em linhas gerais, esses são passos que a pessoa precisa dar para se tornar um evangélico de carteirinha. A certificação de colação para esse novo grau é o batismo nas águas, cuja prova final é realizar um enfrentamento com as situações e pessoas do seu passado (que não existe mais) para comprovar a todos e a si mesmo a sua condição de ser recriado.

- Continua na Parte II -

(1) Neopentecostalismo: é uma vertente evangélica, considerada a Terceira Onda do Pentecostalismo cujas doutrinas se baseiam, entre outras, na Teologia da Prosperidade (1.a), na utilização massiva da mídia (Televisão, Rádio, Jornal, Editora de Livros) para a propagação da Igreja e proselitismo e a batalha espiritual (confronto espiritual direto com os demônios), maldições hereditárias, possessão de crentes (domínio demoníaco sobre as pessoas, resultando em doenças ou fracasso), etc.

(1.a) Teologia da Prosperidade: em tese é a doutrina que ensina que uma vida medíocre do cristão é um indício de falta de fé. Então um cristão deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido, ter saúde plena física, emocional e espiritual, além de buscar a prosperidade material. A pobreza e a doença derivariam de maldições, fracassos, vida de pecado ou fé insuficiente e incredulidade.

(2) Professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

(3) Debates do NER, Porto Alegre, ano 1, n. 1, p. 10-36. Novembro de 1997.

(4) Alteridade: A palavra alteridade possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e e capacidade de dialogar. A pratica alteridade se aplica aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos, etc. Nas palavras de Martin Luther King “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”.

(5) Salvação: A palavra salvação, tem sua origem no grego soteria, transmitindo a ideia de cura, redenção, remédio e resgate; no latim salvare, que significa salvar e seu uso mais frequente tem a ver com libertação eterna e espiritual. No caso dos evangélicos diz respeito a ser salvo do julgamento de Deus sobre o pecado. O pecado nos separou de Deus, e a consequência do pecado é morte. Salvação bíblica se refere à libertação da consequência do pecado e envolve, portanto, remoção do pecado. Em outras palavras, salvação é a libertação espiritual e eterna que Deus concede imediatamente a aqueles que aceitam Suas condições de arrependimento e fé no Senhor Jesus. Salvação só é possível através de Jesus Cristo  e depende de Deus para a sua provisão, garantia e segurança.

Marcadores:

1 Comentários:

Blogger dhereid disse...

Estimado, pai Caio, o sr. ja leu essa sandice? http://jornaldoaxe.com.br/noticias/geral/357-primeiro-orixa-brasileiro-comemora-um-1-ano

Vergonha alheia e ainda mais de quem deu espaco a isso!
Abraco,
Daniela

12:56 PM  

Postar um comentário

<< Home